Apesar do entusiasmo e otimismo de muitos para o ano de 2023, a economia brasileira não reflete essa expectativa. A verdade é que a atividade econômica do país passou a desacelerar e perder ritmo na reta final de 2022, conforme pesquisas divulgadas recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os motivos, segundo os economistas, são vários: juros e preços elevados, dissipação do impulso da retomada, renda baixa e menor disposição para o consumo, informa a Folha de S. Paulo.
Essa percepção dos economistas foi reforçada, principalmente, pelo resultado do volume de serviços, que tem maior peso na economia. A PMS (Pesquisa Mensal de Serviços) do IBGE aponta que o setor ficou estagnado em novembro, com variação nula (0%) frente a outubro – configurando o segundo mês sem crescimento, visto que o resultado anterior havia sido baixa de 0,5%. Em novembro, os serviços prestados às famílias, que incluem hotéis, bares e restaurantes, recuaram 0,8%, e seguem como a única atividade abaixo dos níveis de 2019.
“A estabilidade registrada em novembro reforça a tendência de desaceleração do setor e da perda de ritmo da atividade econômica que já são sentidas mais fortemente no comércio e na indústria”, avalia Claudia Moreno, economista do C6 Bank. A desaceleração dos serviços bateu na porta, após um acúmulo de taxas positivas, que posicionaram o setor a 10,7% acima do patamar pré-pandemia, em fevereiro de 2020, mas agora 0,5% abaixo do recorde alcançado em setembro de 2022.
“Os dados começam a indicar um cenário que não é tão favorável. A gente viu a economia se recuperando, o mercado de trabalho mostrou isso, mas ainda há muita coisa a resolver”, afirma Juliana Inhasz, professora e economista do Insper. “O brasileiro está com uma renda mais baixa. Isso está se refletindo nos dados. Há uma disposição menor para o consumo”, completa.
Outros setores
Embora o analista da pesquisa de serviços do IBGE, Luiz Almeida, pondere que ainda seja cedo para definir se estamos diante de um ponto de inflexão da trajetória, o freio dos serviços se acumula aos resultados dos outros setores. Mesmo em período de Black Friday e a Copa do Mundo, o comércio varejista recuou 0,6% em relação a outubro, enquanto a produção industrial encolheu 0,1%.
“Os dados confirmam nossas expectativas de desaceleração da economia. Os efeitos da taxa Selic, que se encontra atualmente em 13,75%, são crescentes”, afirma Eduardo Vilarim, economista do banco Original. Ele salienta ainda, que os preços dos bens e serviços seguem em patamar elevado, apesar da redução no acumulado dos últimos 12 meses da inflação.
Vale destacar também, que é o segundo ano consecutivo que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) estoura o teto da meta. “Temos um esgotamento das famílias para o consumo”, pontua Vilarim. “A inflação pode até desacelerar , mas o nível é de preços elevados. Precisaríamos de uma deflação para abrir espaço no orçamento das famílias”, complementa
PIB
Diante desse cenário, as expectativas para o PIB (Produto Interno Bruto) não são das mais positivas. Na projeção do banco Original, o indicador deve retrair 0,3% no quarto trimestre de 2022, convergindo na previsão alta de 2,9% no acumulado do ano. O C6 Bank é ainda mais pessimista, apontando que o resultado pode não só encerrar em torno de zero, como ficar negativo. Para 2023, a expectativa de ambos os bancos é de forte desaceleração, com avanço de apenas 0,5%.
Na avaliação dos especialistas, o impacto dos juros altos devem continuar como principal desafio deste ano, ainda que a safra agrícola brasileira atinja resultados recordes. Com expectativa do campo produzir 296,2 milhões de toneladas, crescimento de 12,6%. “A agropecuária pode ajudar a reduzir parte do desconforto, mas há outras questões que vão impactar a economia, incluindo a renda baixa e as incertezas. A safra, mesmo recorde, não deve reverter essa lógica”, finaliza Juliana.
(*) Crédito da foto: joaogbjunior/Pixabay










