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Gente Hoteleira debate a IA além das promessas

A incorporação de novas tecnologias à hotelaria não está mudando apenas processos e sistemas. A transformação também alcança as pessoas, redefine competências e exige um novo perfil dos profissionais que atuam no setor. O tema norteou a palestra Tecnologia, automação e um novo perfil profissional, apresentada por Carlo Fabiano Pereira, diretor de Tecnologia da Atrio, que abriu o segundo dia do 4º Encontro de Gente Hoteleira.

Realizado pelo Hotelier News em parceria com a HotelConsult, o evento integra a programação da Equipotel 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo. A iniciativa reúne executivos e especialistas para discutir os principais desafios da gestão de pessoas na hospitalidade.

Durante a apresentação, Pereira lançou o questionamento: a tecnologia transforma o trabalho? A resposta passou pela evolução da sociedade e do mercado de trabalho, com destaque para funções profundamente impactadas por novas ferramentas e aplicativos, como caixas de banco, porteiros, taxistas e, claro, hoteleiros.

“Minha intenção é separar o hype das promessas que vemos nas redes sociais para abordar o que é real no dia a dia”, pontuou Pereira. “A tecnologia sempre esteve conosco e faz parte da nossa evolução. Mas a nossa invenção mais recente passou a colocar em dúvida a nossa cognição”, acrescentou.

O diretor da Atrio também questionou como as pessoas reagem à tecnologia. Pereira avaliou que, embora as novas ferramentas despertem entusiasmo, parte da população ainda acompanha essa evolução com certo receio. “As pessoas criaram uma dependência da tecnologia. E o medo também pode ser um modelo de negócio. Uma pesquisa dos EUA aponta que 71% dos norte-americanos acreditam que a IA pode substituir seus empregos em 20 anos”.

Carlo Pereira
Pereira destacou o impacto da IA no RH

A promessa dos atalhos

Pereira pontuou que as tecnologias prometem atalhos, uma ideia que atrai tanto as pessoas quanto os departamentos de marketing. Para o executivo, trabalhar com IA é um processo de experimentação que exige prática cotidiana.

“Sempre queremos um bilhete premiado. É comum surgirem ofertas de treinamentos em IA que prometem renda extra passiva. Para aprender a usar a tecnologia, recomendo fazer perguntas, explorar as ferramentas e descobrir como resolver problemas”, afirmou.

Como lidar com as transformações?

Ao tratar da resposta das equipes às mudanças tecnológicas, Pereira apresentou três possíveis comportamentos. O profissional frágil sofre o impacto e tende a recuar ou fugir. O resiliente resiste ao choque e retorna ao estado anterior. Já o antifrágil aprende com a transformação, adapta-se e melhora.

O conceito de antifragilidade, desenvolvido por Nassim Nicholas Taleb, serviu de base para mostrar que as mudanças podem ir além da capacidade de resistência. Diante do avanço tecnológico, o diferencial está em usar as incertezas como fonte de aprendizado e evolução profissional.

IA generativa no mundo real

Ao levar a discussão para o ambiente corporativo, Pereira destacou a distância entre o interesse pela inteligência artificial e os resultados efetivamente alcançados. Segundo os dados apresentados, 80% dos projetos corporativos de IA não entregam o valor de negócio esperado.

Um levantamento do MIT Project NANDA, de 2025, aponta ainda que 95% dos projetos-piloto de IA generativa não geram retorno mensurável para as empresas. Já dados da Gartner indicam que 73% dos projetos malsucedidos foram iniciados sem uma definição de sucesso previamente estabelecida.

Apenas 28% das iniciativas de IA entregam o retorno sobre o investimento prometido, enquanto as demais são interrompidas ao longo do caminho, segundo pesquisa da Gartner realizada com 762 líderes de TI. Os números reforçam a necessidade de iniciar projetos com objetivos claros, problemas bem definidos e critérios capazes de medir os resultados.

A urgência artificial

Pereira também alertou para a pressão interna que pode levar empresas a adotar inteligência artificial sem um problema real a ser resolvido. Segundo ele, a cobrança por resultados e crescimento, somada ao hype em torno de promessas como aumento de produtividade, redução de custos e escala, faz com que os conselhos questionem o que as organizações estão fazendo com IA.

Essa sequência cria o que o executivo chamou de urgência artificial: projetos iniciados apenas para demonstrar que a empresa está acompanhando a tecnologia, mas sem propósito claro. Para Pereira, a adoção deve partir de uma necessidade concreta do negócio, e não apenas da pressão para incorporar a ferramenta.

Do ganho individual ao resultado empresarial

Pereira afirmou que os benefícios individuais da inteligência artificial já são perceptíveis, enquanto a aplicação empresarial ainda passa por um processo de amadurecimento. Segundo os dados apresentados, uma pessoa com uma boa ferramenta pode produzir mais: 73% já utilizam IA no trabalho, o uso da tecnologia pode representar uma economia de duas horas por semana e desenvolvedores chegam a produzir 50% mais código.

Nas empresas, porém, transformar esses ganhos em resultados exige integrar a IA aos processos. Apenas 6% das organizações são consideradas de alta performance no uso da tecnologia, enquanto 20% já registraram aumento de receita com IA e 29% reduziram custos em contratos.

Para o executivo, os números mostram que o acesso à ferramenta, por si só, não garante retorno. O avanço depende de incorporar a inteligência artificial à rotina das empresas, com objetivos definidos e aplicações ligadas às necessidades do negócio.

(*) Crédito das fotos: Bruno Churuska/Hotelier News

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