Diante das dificuldades para atrair profissionais, a hotelaria começa a rever critérios, canais e processos de seleção. As alternativas adotadas pelas empresas para ampliar o acesso a talentos estiveram no centro do painel Novas fronteiras da contratação: o que o mercado tem feito para sair do tradicional?, realizado na manhã de hoje (17), durante o 4º Encontro de Gente Hoteleira.
O encontro foi moderado por Marcelo Boeger, gestor de Hospitalidade e consultor, e reuniu Hubber Clemente, CEO da AFROTURISMO HUB; Nilton Camillo, gerente geral do Meliá Paulista; e Maurício Reis, gerente de Pessoas & Cultura da Accor.
Boeger iniciou o painel questionando qual é a maior dificuldade enfrentada atualmente pelo setor na contratação. Clemente ponderou que é necessário compreender a realidade dos candidatos e humanizar os processos seletivos. “Quando falamos em humanização, precisamos ser realistas sobre quem são os possíveis candidatos para atuar no setor. O perfil com o qual a hotelaria está acostumada ficou ultrapassado. Hoje, temos pessoas com diferentes realidades e, por isso, é preciso avaliar como estamos recrutando”, afirmou.
O gerente da Accor avaliou que a pandemia acelerou a mudança de comportamento dos profissionais não apenas no Brasil, mas em nível global. “Também temos competidores que não haviam antes, como Uber, trabalhos autônomos, influenciadores, enfim, as possibilidades são muitas”.
Camillo, por sua vez, apontou a retenção de profissionais como o principal desafio da hotelaria atualmente. Segundo o gerente geral do Meliá Paulista, há muitos talentos disponíveis no mercado, mas que ainda são pouco alcançados pelos processos de recrutamento.

Como a IA se aplica ao recrutamento de pessoas?
Na Accor, a captação de candidatos ocorre por diferentes vias, como redes sociais, grupos de WhatsApp e portais, entre outros canais. “É imprescindível que as empresas estejam presentes nesses ambientes digitais, partindo do pressuposto de que as pessoas se informam e consomem conteúdo e entretenimento pela internet. Precisamos comunicar nosso pacote de benefícios e nossos valores”, explicou Reis.
Clemente acrescentou uma nova camada à discussão ao questionar se os hotéis oferecem treinamentos voltados ao recrutamento e à integração de grupos minorizados. “Essas pessoas vão se sentir à vontade trabalhando nos hotéis de vocês? As empresas promovem treinamentos para evitar que esses grupos sejam discriminados? A equipe é diversa?”, questionou.
O gerente da Accor destacou que a rede francesa busca comunicar, na página Talentos Accor, voltada ao recrutamento, sua proposta de valor por meio do slogan “Seja quem você é”, que reforça a diversidade das equipes da empresa.
Camillo retomou um dado compartilhado no Hotel Trends Conference: atualmente, o índice de turnover da hotelaria brasileira é de 38%, segundo o estudo Orçamentos Hoteleiros. No Meliá Paulista, o indicador é de 4,49%. “Cerca de 20% da nossa equipe tem mais de 50 anos, enquanto outros 5% têm mais de 60. As camareiras da melhor idade realizam o trabalho com muito carinho. Também estamos desenvolvendo programas de treinamento para haitianos e venezuelanos”, afirmou. No empreendimento da rede espanhola, o NPS saltou de 47% para 78% nos últimos dois anos.
No caso dos empreendimentos independentes, Clemente destacou que o desafio é ainda maior, uma vez que muitos gestores acumulam diferentes funções. “A pessoa responsável pelo RH nem sempre tem tempo para fazer a gestão de pessoas e, consequentemente, os problemas não são resolvidos”, avaliou.
Sobre os processos seletivos remotos, Camillo ponderou que as entrevistas finais devem ser realizadas presencialmente. “É importante que o candidato conheça o gestor e o ambiente de trabalho. Caso contrário, pode encontrar uma realidade diferente daquela que esperava”, afirmou.
As experiências apresentadas no painel indicam que ampliar o acesso a talentos exige mais do que divulgar vagas em novos canais. A hotelaria precisa rever o perfil que procura, compreender as diferentes realidades dos candidatos e preparar suas equipes para receber profissionais de grupos ainda pouco alcançados pelo setor.
Nesse processo, recrutamento e retenção caminham juntos. Comunicar valores e benefícios, humanizar a seleção e apresentar com transparência o ambiente de trabalho são pontos essenciais para atrair pessoas e reduzir a distância entre as expectativas dos candidatos e a realidade dos hotéis.
(*) Crédito das fotos: Bruno Churuska/Hotelier News














