O início do conflito no Irã, que completa seu primeiro mês, representou um verdadeiro balde de água fria sobre as expectativas econômicas globais e, em particular, sobre o cenário brasileiro. Até então, havia uma percepção relativamente disseminada de que 2026 seria marcado por um ciclo mais consistente de flexibilização monetária no Brasil, com cortes de 0,5 ponto percentual na taxa Selic ao longo do ano, conduzindo-a para patamares próximos a 12% ao final do período. No entanto, a deterioração do ambiente internacional alterou de forma relevante essa trajetória.
Diante da elevação das incertezas e das pressões inflacionárias decorrentes do conflito, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por um corte mais cauteloso, de apenas 0,25 ponto percentual, sem sinalização clara sobre os próximos passos. A decisão, ainda que compreensível sob a ótica da prudência, frustrou as expectativas de agentes econômicos que apostavam em uma aceleração do processo de redução dos juros.
A manutenção de taxas elevadas por mais tempo reforça um quadro de desaceleração da economia brasileira, sobretudo ao restringir o acesso ao crédito por famílias e empresas. O custo financeiro mais alto desestimula o consumo e posterga decisões de investimento, limitando o dinamismo de diversos setores. Entre eles, o turismo, que embora apresente crescimento acima da média nacional, opera aquém de seu potencial.
O setor turístico é particularmente sensível tanto às condições de crédito quanto à renda disponível das famílias. Em um ambiente de juros elevados, o consumo tende a ser mais seletivo, ainda que instrumentos como o parcelamento mantenham alguma sustentação da demanda. Ainda assim, o cenário atual sugere uma migração para opções mais econômicas, com impacto direto sobre o ticket médio e a rentabilidade das atividades.
Além disso, o conflito no Oriente Médio trouxe consigo uma forte elevação nos preços do petróleo, com efeitos disseminados sobre toda a cadeia do turismo. O aumento do querosene de aviação pressiona o custo das passagens aéreas, enquanto a alta do óleo diesel e da gasolina encarece o transporte rodoviário, os passeios turísticos, os traslados e a locação de veículos. Trata-se de um choque de custos que tende a ser repassado, ao menos parcialmente, aos consumidores finais, alimentando a inflação no setor.
Há ainda impactos indiretos relevantes, como o encarecimento dos alimentos, decorrente do aumento dos custos logísticos desde o campo até o consumidor. Esse efeito adicional contribui para pressionar o orçamento das famílias, reduzindo o espaço para gastos como viagens.
Um fator que atenuou parcialmente esse cenário foi o comportamento do câmbio. Diferentemente de outros episódios de crise internacional, o real não apresentou uma desvalorização acentuada até o momento, o que evitou uma pressão ainda maior sobre os preços dos combustíveis e outros itens dolarizados. Ainda assim, esse alívio é relativo e não elimina os desafios colocados pelo novo contexto global.
Em síntese, a decisão mais conservadora do Copom reflete uma leitura adequada dos riscos, mas impõe custos em termos de crescimento econômico. Não se trata, necessariamente, de uma reversão para um cenário recessivo, mas de uma frustração das expectativas de uma recuperação mais robusta. O país tende a permanecer em um ritmo moderado de expansão, com investimentos mais contidos e um ambiente de maior cautela — quadro que, inevitavelmente, limita o pleno desenvolvimento de setores estratégicos como o turismo.
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Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP
(*) Crédito da foto: Divulgação










