Para além dos efeitos imobiliários, a consolidação do long stay na hospitalidade urbana amplia o debate sobre limites operacionais, impacto no entorno e enquadramento legal. Embora muitas operadoras de STR (short-term rental) tenham surgido com foco em estadas curtas, parte do setor passou a observar a longa permanência como um complemento estratégico, ainda que com modelos, riscos e retornos distintos.
Na prática, o long stay ocupa um espaço intermediário entre a hotelaria tradicional e a locação residencial. Por isso, é um formato que também exige ajustes operacionais, segmentação clara de público e atenção redobrada à legislação.
É o que explicaram Mônica Medeiros, sócia e CCO da Seazone, e William Astolfi, CEO e fundador da BHomy, à reportagem do Hotelier News, trazendo visões diferentes dentro do segmento.
Perfis e expectativas diferentes
O primeiro ponto de divergência está no próprio perfil do hóspede. Segundo Mônica, é importante tratar algo básico, mas que pode ser desconsiderado pelas empresas: trata-se de público e modelo diferentes da curta temporada, algo mais habitual ao STR.
“O cliente de estada curta, em geral, busca localização e conveniência, com estadas médias de três a sete dias. Já o hóspede de estada longa procura um lugar para morar, com contratos superiores a um ano, priorizando espaço”, explica a executiva.

Na BHomy, o long stay aparece como uma solução de moradia transitória. Astolfi afirma que o público é formado, sobretudo, por pessoas em fase de mudança. “É alguém que acabou de chegar à cidade, está trocando de apartamento, passou por uma separação ou simplesmente busca comodidade a partir de um imóvel mobiliado e serviços incluídos”, diz.
Adaptação operacional
As diferenças de perfil impactam diretamente a forma de operação. O long stay se enquadra como locação residencial tradicional, regida pela Lei do Inquilinato, o que o distancia do core business de operadoras focadas em STR. A locação de 12 a 30 meses segue regras próprias e bem diferentes da dinâmica de curta temporada, de acordo com os especialistas.
E, mesmo dentro da mesma estrutura, o long stay demanda ajustes. Há clientes que querem visitar antes de fechar, outros pedem pequenas adaptações no apartamento e muitos solicitam serviços recorrentes, como limpeza e troca de enxoval. São situações específicas, mas que definem certos parâmetros.
Quando o olhar se volta ao impacto urbano, a longa estada tende a gerar efeitos mais estáveis no entorno, com maior integração à vizinhança e uso contínuo dos serviços locais. Ainda assim, Mônica pondera que o impacto econômico da curta temporada costuma ser mais intenso. “O hóspede de short stay consome mais em restaurantes, passeios e comércio, injetando dinheiro novo na economia local”, avalia.
Precificação, sazonalidade e estratégia
A precificação também reflete a natureza híbrida do modelo. Astolfi explica que os valores mensais costumam ficar abaixo das diárias semanais, mas acima do aluguel residencial de longo prazo. “É um meio-termo entre flexibilidade e previsibilidade”, resume.
Para lidar com sazonalidade, a estratégia varia conforme o portfólio. Enquanto Mônica destaca que a Seazone mitiga oscilações com diversificação geográfica, tecnologia e precificação dinâmica no short stay, Astolfi aponta o mix de produtos como caminho.
“Em algumas regiões, trabalhar com curta, média e longa temporada é uma forma inteligente de equilibrar a demanda”, afirma o executivo.

Legislação
No campo jurídico, ambos reforçam que o conflito costuma surgir mais da falta de profissionalização do que da legislação em si. Mônica afirma que tanto a locação por temporada quanto a residencial são amparadas pela Lei do Inquilinato. “No short stay, o problema vira mito quando há amadorismo. Gestão profissional, controle de acesso e respeito às regras do condomínio fazem diferença”, explica.
Astolfi segue linha semelhante e lembra que a legislação é clara quanto aos prazos. “Até 90 dias é locação por temporada. Acima disso, entra a locação padrão de 30 meses”, diz.
A convivência em edifícios residenciais aparece como um ponto sensível. Para ambos, a segurança precisa ser tratada como prioridade, com identificação prévia dos hóspedes e controle tecnológico de acesso. Além disso, regras claras e sistemas de apoio são vistos como essenciais em prédios que mesclam moradores fixos e temporários.
Receita e peso do long stay
Por fim, quando o tema é receita, eles reconhecem que, embora o modelo exista e seja importante para balancear a demanda, seu papel ainda tem peso reduzido. O fundador da BHomy, por exemplo, afirma que o long stay representa uma parcela pequena de seu faturamento.
O cenário, portanto, traz uma característica de segmento complementar ao produto de estada estendida no STR, adotado de forma seletiva e estratégica. Mais do que uma tendência homogênea, o modelo exige ainda clareza de posicionamento, leitura jurídica precisa e alinhamento entre produto, público e operação.
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