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Turismo global brilha, mas Brasil ainda é ofuscado

Após a maior crise de sua história durante a pandemia, o turismo está mais vivo do que nunca. O bom momento, observado globalmente, aponta que o setor deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionado por condições econômicas favoráveis e pelo avanço regional, apesar das pressões oriundas de tensões comerciais e riscos geopolíticos. Esses são os principais insights da última edição do Tourism Watch, desenvolvido pelo Banco Mundial. Porém, o Brasil ainda precisa melhorar sua performance para se destacar perante o restante do mundo.

De acordo com o levantamento, a receita global do turismo internacional em 2024 atingiu US$ 1,7 trilhão. As regiões da América Central e América do Sul contribuíram com 7,5% do GDP (Gross Domestic Product) — versão em inglês do PIB (Produto Interno Bruto). Segundo a FecomercioSP, o setor no Brasil faturou R$ 207 bilhões no ano passado, atingindo um recorde histórico.

As chegadas de turistas internacionais cresceram 5% no primeiro trimestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da UN Tourism. Estima-se que 304 milhões de viajantes internacionais circularam pelo mundo entre janeiro e março deste ano.

O Índice de Confiança da UN Tourism aponta um otimismo moderado para os próximos meses, com expectativa de crescimento entre 3% e 5% nas chegadas ao longo de 2025. O cenário é sustentado por um aumento de 8% na demanda por viagens aéreas internacionais, conforme relatório da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) divulgado em abril.

Apesar do bom desempenho, tensões comerciais e de segurança ainda em curso podem afetar os fluxos turísticos e reduzir a demanda na segunda metade do ano. As receitas totais com exportações do turismo (incluindo transporte de passageiros) atingiram US$ 1,9 trilhão, com crescimento estimado em 11% em 2024. O gasto médio por turista ficou em cerca de US$ 1,1 mil.

No primeiro trimestre de 2025, as chegadas de passageiros da aviação, indicador usado como proxy para o turismo internacional, cresceram 9% em relação ao mesmo período de 2024. A região do Leste Asiático e Pacífico liderou a variação ano a ano, com alta de 14%. O avanço foi registrado em 80% dos territórios que reportaram dados, com destaque para Butão (+42%), Groenlândia (+26%) e Japão (+21%).

turismo - mapa

Brasil avança, mas longe do seu potencial

Em 2024, o Brasil recebeu 6,65 milhões de turistas estrangeiros, alta de 12,6% frente ao ano anterior. No período, os gastos dos visitantes internacionais chegaram a US$ 7,341 bilhões, superando, inclusive, os desembolsos durante a Copa do Mundo de 2014 (US$ 6,914 bilhões), segundo dados do MTur (Ministério do Turismo).

No primeiro trimestre de 2025, a chegada de turistas estrangeiros atingiu a marca histórica de 5,3 milhões, avanço de 48,2% frente ao mesmo período em 2024. De acordo com a pasta, se o país mantiver o ritmo, poderá superar os 8,1 milhões de visitantes internacionais ainda este ano — meta originalmente estabelecida para 2027.

Pesquisadora de Turismo da USP (Universidade de São Paulo), Mariana Aldrigui reforça o bom momento do turismo global, mas pondera que é preciso analisar os números de perto. “O crescimento é generalizado e esperado por todos os países com boa conectividade, atratividade, preços e imagem internacional. Não estamos superando ninguém”, avalia.

A especialista afirma que os resultados são, de fato, dignos de comemoração, mas pontua que grande parte dessas entradas internacionais é de argentinos, atraídos pela questão cambial, o que pode não sustentar os números no futuro. “É preciso analisar se há investimentos para preservar esse volume, entender para onde esses turistas estão indo, onde ficam, quanto gastam ou se não estão apenas cruzando a fronteira para ir fazer compras mais baratas”.

Ela salienta que as chegadas de estrangeiros precisam ser proporcionais aos gastos. A pesquisadora ainda enfatiza que os desembolsos calculados pelo BC (Banco Central) nem sempre são apenas voltados ao turismo. “Precisamos prestar atenção em como esses valores são medidos e onde está essa concentração de turistas a partir de dados de hospedagem”.

Jeanine Pires
Jeanine destaca o papel do turismo doméstico

Mais conectividade e produtos

Jeanine Pires, ex-presidente da Embratur e atual conselheira da Presidência da República, reforça a fala de Mariana sobre o cálculo de gastos de estrangeiros. “Se não olharmos os gastos, não saberemos medir o quanto essa atividade é relevante para o desenvolvimento do país em termos gerais”.

A executiva também destaca que o turismo internacional não pode ser dissociado do doméstico — uma vez que a demanda nacional impulsiona o desenvolvimento de equipamentos, produtos, serviços e estrutura. “Foi o turismo doméstico que alavancou o setor no pós-pandemia. Sem ele, não há como sustentar as chegadas de estrangeiros”.

Para ela, a ampliação da malha aérea e o câmbio são os principais fatores que contribuíram para o crescimento do turismo internacional no Brasil. “E não podemos esquecer dos grandes eventos, como os shows de Madonna e Lady Gaga no Rio, que ajudaram na promoção internacional”.

Com a COP30 batendo à porta, Jeanine acredita que o Brasil ficará sob os holofotes do mundo, mesmo este não sendo um evento focado em lazer e turismo. “É uma oportunidade para gerar visibilidade, pois receberemos muitos estrangeiros. Assim como outros grandes eventos, como a Copa e as Olimpíadas, enfrentaremos problemas, mas não acredito que tais fatores afetarão a imagem do país lá fora”.

Na visão de Mariana, o evento da ONU pode expor fragilidades na estrutura turística do país — o que pode impactar negativamente a demanda no futuro. “Precisamos ter cuidado com aspectos estruturais básicos, como internet, ar-condicionado e espaços. Belém não é uma cidade que vai rapidamente captar outros eventos. Faltou orientação sobre os preços praticados”.

Jeanine ainda destaca o papel da hotelaria como pilar fundamental da estrutura do turismo — hoje complementada pela oferta crescente de aluguéis por temporada. “Goste ou não, é um segmento complementar à hotelaria. E não vejo nenhum problema, pois hoje recebemos pessoas com novos padrões de comportamento em viagens, como os nômades digitais, por exemplo”.

Mariana Aldrigui - turismo
Mariana pontua a falta de atratividade do setor

Geração de empregos

O turismo continua sendo um motor fundamental para a geração de empregos no setor de serviços em todo o mundo. Em 2024, o segmento representou 10% do PIB global e sustentou 356,6 milhões de empregos, o equivalente a 1 em cada 10 postos de trabalho, informa o Tourism Watch. Para cada vaga criada diretamente no turismo, outras 1,5 são geradas em setores conectados, como agricultura, economia criativa e varejo.

Com barreiras de entrada relativamente baixas, o setor pode beneficiar especialmente mulheres e jovens. Pessoas entre 15 e 24 anos representam 15,5% da força de trabalho global no turismo — acima da média da economia como um todo —, enquanto as mulheres respondem por 40% dos empregos diretos no setor.

Mas nem todos os empregos no turismo são de alta qualidade. O relatório Rethinking Caribbean Tourism, do Banco Mundial, utiliza um Índice Multidimensional de Qualidade do Emprego (JQI, na sigla em inglês) para avaliar a situação laboral no setor em quatro países caribenhos: Barbados, República Dominicana, Granada e Santa Lúcia. O estudo constatou que, embora os empregos no turismo apresentem melhor qualidade do que os do setor primário, ainda ficam atrás daqueles na indústria e em outros serviços.

De acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), no acumulado dos últimos 12 meses, o turismo foi responsável pela criação de 207 mil vagas de emprego formais no Brasil. Entre os destaques, os segmentos de alojamento e alimentação lideraram com 85,8 mil oportunidades desenvolvidas.

“É um setor de baixa produtividade, que oferece muitos empregos de baixa qualificação, baixa remuneração e escalas pesadas. Desde o fim da pandemia, é uma área que perdeu o seu apelo, mas insiste em buscar mão de obra com dois ou mais idiomas, repertório internacional, treinamento, mas que não paga por isso”, enfatiza Mariana.

A pesquisadora salienta que o perfil de mão de obra do turismo mudou. Se antes o setor atraía jovens das classes A e B, hoje são profissionais que nunca viajaram para fora, sem experiência internacional. “É frágil afirmar que é um setor interessante em termos de emprego. É, de fato, uma excelente porta de entrada para o mercado de trabalho para jovens em cidades turísticas, mas que compete com outros segmentos que remuneram melhor”.

As tendências globais que estão transformando o setor representam uma oportunidade, mas exigem que os países revisem a formação profissional em turismo. Estão surgindo novos perfis de trabalho em resposta a essas mudanças, como naturalistas, guias especializados em observação de aves, gestores de plataformas digitais e especialistas em monitoramento de sustentabilidade — funções que abrem caminhos para o empreendedorismo e o desenvolvimento de carreiras de longo prazo.

Capacitações sob demanda em turismo são fundamentais para preparar os trabalhadores — especialmente os jovens — com habilidades transferíveis, como atendimento ao cliente, vendas e idiomas. Essas competências podem facilitar a transição para outras áreas, como finanças, direito e negócios.

Projetos do Banco Mundial em diversas partes do mundo vêm promovendo a criação de novos empregos ligados ao turismo sustentável, gestão, tecnologia da informação, competências digitais e atendimento remoto. Essas iniciativas surgem em um cenário de crescente concorrência global e disputas entre o modelo tradicional de hospedagem e os aluguéis de curta duração.

(*) Crédito da capa: Unsplash

(**) Crédito das fotos: Divulgação

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