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Incertezas globais pressionam viagens corporativas

As ações do governo dos EUA continuam provocando efeitos em cadeia sobre o cenário global, e o setor de viagens corporativas vem enfrentando um ambiente de crescente incerteza. Com estratégias sendo revistas e orçamentos mais apertados, o otimismo entre empresas que enviam funcionários a trabalho vem diminuindo, especialmente no que diz respeito a deslocamentos internacionais. Mais organizações agora preveem queda no volume e nos gastos com viagens. E o Brasil pode, sim, ser significativamente impactado por este cenário, aponta o Hotel Management.

Quase metade dos fornecedores globais de serviços de viagem já projeta perdas de receita — número que subiu de 37% para 48% nos últimos três meses. Ao mesmo tempo, aumentam os cancelamentos ou transferências de reuniões e eventos realizados nos EUA, além da migração para formatos virtuais. Políticas norte-americanas, como novas tarifas de importação, restrições de entrada no país e alertas fronteiriços, têm levado empresas a repensar seus roteiros e direcionar investimentos para outros mercados.

Os dados fazem parte de uma nova pesquisa divulgada pela GBTA (Global Business Travel Association), que monitora a percepção e o impacto das ações do governo norte-americano sobre o setor. Segundo a entidade, os resultados mais recentes mostram tanto a continuidade de tendências quanto o surgimento de novos movimentos desde o levantamento anterior, realizado em abril de 2025.

Viagens corporativas - Suzanne_Neufang
CEO da entidade analisa cenário global

“A pesquisa revela uma indústria que está se adaptando ativamente à geopolítica em transformação e às novas diretrizes dos EUA”, afirma Suzanne Neufang, CEO da GBTA. “Embora a demanda geral ainda se mantenha resiliente, a instabilidade econômica e as ações do governo dos EUA continuam gerando ondas que afetam todo o ecossistema global de viagens”.

Brasil resiste bem, mas o alerta está aceso

Em meio a esse cenário de retração e reconfiguração no setor global de viagens corporativas, o Brasil apresenta um comportamento distinto. Por ora, o mercado nacional se mostra mais resiliente. A demanda interna segue aquecida, e os indicadores apontam para uma continuidade de crescimento moderado no segmento, sobretudo em viagens regionais e em eventos presenciais de negócios.

No entanto, o país não está imune aos ventos que sopram de fora. O contexto internacional traz riscos relevantes: o chamado “tarifaço” norte-americano, somado à inflação persistente e aos juros elevados nos EUA, já impacta cadeias globais de valor e decisões de investimento. À medida que empresas passam a realocar recursos ou adiar decisões estratégicas, os reflexos podem chegar ao Brasil.

Além disso, há um fator doméstico que adiciona um componente de cautela: 2026 será ano eleitoral. Tradicionalmente, esse é um período de menor ritmo econômico, com empresas adotando posturas mais conservadoras, freando investimentos e revendo planos. Ainda é cedo para saber se o cenário de retração que se desenha nos EUA e em outros mercados maduros também atingirá o Brasil — mas a possibilidade está no radar de gestores e fornecedores do setor.

A depender da evolução do cenário externo e do comportamento da economia nacional nos próximos meses, o segundo semestre de 2025 poderá ser decisivo para o setor ajustar expectativas para 2026.

Receitas sob pressão

A sondagem da GBTA, realizada em julho, ouviu 950 profissionais do setor — entre gestores de viagens corporativas, fornecedores, TMCs (Travel Management Companies) e outros intermediários — em 45 países, distribuídos por quatro regiões globais. Quase metade dos fornecedores (48%) espera queda na receita vinda de viagens de negócios, com um recuo médio de 17%, um dado próximo aos 18% registrados em abril. Os mais preocupados são os fornecedores de hospedagem, com 58% prevendo perdas.

No lado dos compradores, o cenário também é de cautela. Um terço (34%) das empresas espera uma redução no número de viagens de negócios em 2025 por conta das ações do governo norte-americano, proporção ligeiramente acima dos 29% de abril. O recuo esperado no volume médio de viagens permanece praticamente estável: 19% agora, ante 21% na pesquisa anterior.

As viagens internacionais aparecem como mais vulneráveis que as domésticas. Quase metade dos respondentes (49%) prevê queda nas viagens ao exterior, contra 23% que projetam recuos nas viagens internas ou regionais. Em média, a expectativa é de retração de 19% nas internacionais e de 21% nas domésticas.

Outros dados

O impacto nos orçamentos permanece uma das principais preocupações. Um terço dos compradores (31%, contra 27% em abril) prevê redução nos gastos com viagens corporativas — com um recuo médio de 17%, ligeiramente inferior aos 20% anteriores. A confiança no setor caiu globalmente: 28% dos respondentes se dizem otimistas com o restante do ano, abaixo dos 31% de abril e bem distante dos 67% registrados em novembro de 2024.

Na comparação regional, a queda mais brusca foi na Ásia-Pacífico, onde o otimismo caiu de 40% para 27%. Entre os gestores de viagens corporativas (compradores), a confiança se manteve estável (29%), mas do lado dos fornecedores e TMCs houve forte retração: de 36% para 27%.

Os maiores temores de longo prazo seguem sendo o aumento dos custos com viagens (55%) e o crescimento da burocracia (47%). No entanto, houve uma alta expressiva nas preocupações com segurança e dever de cuidado com os viajantes (46%, alta de 9 pontos) e com detenções em fronteiras (31%, também 9 pontos acima). Outros dois pontos que acenderam alertas foram os cortes orçamentários (44%) e a queda no interesse de funcionários não americanos em viajar aos EUA (41%) — ambos com aumento de 4 pontos desde abril.

Esse cenário já se reflete em ações concretas: subiram os cancelamentos de eventos nos EUA (de 10% para 17%) e de reuniões (de 13% para 18%), além do aumento da realocação desses encontros para fora do país (eventos subiram de 6% para 12% e reuniões de 8% para 13%). Também houve mais empresas que cancelaram o envio de funcionários a eventos nos EUA (de 10% para 20%) e que transferiram suas reuniões para o ambiente online (de 19% para 24%).

Busca por novos parceiros e impactos pessoais

A pesquisa mostra ainda que um terço (35%) dos profissionais do setor fora dos EUA afirma que suas empresas já estão viajando ou planejam viajar para encontrar novos parceiros comerciais em outros mercados. Europa (70%) e Ásia-Pacífico (53%) são os principais destinos considerados nesse movimento de diversificação.

O impacto também já é pessoal para muitos: um em cada cinco gestores de viagens (18%) relata que funcionários se recusaram a fazer viagens aos EUA por receios relacionados a políticas governamentais. E mais de um terço dos entrevistados globalmente (35%) afirmam conhecer alguém cujo deslocamento foi diretamente afetado por mudanças nas políticas norte-americanas — um salto significativo em relação aos 23% registrados em abril.

(*) Crédito da capa: Divulgação

(**) Crédito da foto: Reprodução/TravelTalk

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