Depois de um ano adicional para adaptação, as empresas brasileiras chegam a partir desta terça-feira (26) ao momento decisivo da implementação da nova redação da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que amplia as obrigações corporativas ao incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de saúde e segurança do trabalho. As informações são do InfoMoney.
A atualização da norma havia sido adiada justamente para ampliar o prazo de adequação das companhias. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo veículo afirmam que grande parte das empresas ainda não conseguiu estruturar processos suficientes para atender às exigências, em meio a dúvidas operacionais, insegurança jurídica e uma corrida de última hora pela conformidade. A hotelaria, inclusive, faz parte dos setores que ainda tentam se adequar às mudanças.
A pressão em torno do tema cresceu acompanhando o avanço do adoecimento mental no ambiente corporativo. Em 2025, um em cada sete trabalhadores precisou se afastar por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Ao todo, foram cerca de 546 mil ocorrências relacionadas à saúde mental — o maior número já registrado historicamente.
Os números mostram uma escalada acelerada desde a pandemia. Os afastamentos ligados à saúde mental cresceram 415%, passando de 91,6 mil casos em 2020 para 472,3 mil em 2024. Já os benefícios por incapacidade temporária saltaram de 1,98 milhão em 2021 para 4,12 milhões em 2025, avanço superior a 100%.
Além do impacto humano, o tema também pesa financeiramente. Apenas as licenças relacionadas à saúde mental consumiram quase R$ 4 bilhões, enquanto o aumento da judicialização trabalhista adiciona mais pressão sobre os custos das empresas.
Pressão sobre empresas cresce
Com a nova NR-1, as empresas passam a ser obrigadas a incluir fatores como metas excessivas, jornadas prolongadas, sobrecarga de trabalho, ambiguidade de funções, isolamento e casos de assédio moral, sexual ou psicológico dentro do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), com monitoramento contínuo e adoção de medidas preventivas.
Segundo especialistas, o principal desafio está no fato de que muitas organizações ainda tratavam saúde mental apenas como pauta de bem-estar, sem conexão direta com governança, produtividade e compliance.
“A realidade é que a maioria ainda não está preparada. Historicamente, saúde mental sempre foi tratada de forma secundária dentro das organizações, muitas vezes restrita a ações isoladas ou campanhas pontuais. A NR-1 muda esse cenário ao exigir gestão contínua, prevenção e monitoramento dos riscos psicossociais com visão estratégica”, afirma Leandro Rúbio, CEO da Starbem.
De acordo com o executivo, muitas companhias apostaram em um novo adiamento da medida e deixaram a implementação para os últimos meses. “Hoje, a cada 10 atendimentos que realizamos, oito empresas ainda não iniciaram efetivamente a implantação da NR-1 ou seguem com dúvidas relevantes sobre como executar corretamente as exigências.”
A avaliação é semelhante à do advogado Eugênio Hainzenreder Jr., sócio-diretor do RMM Advogados e professor de Direito do Trabalho da PUC-RS. “As empresas não estão preparadas porque a norma envolveu uma subjetividade muito grande, tanto que o Ministério do Trabalho publicou manuais e cartilhas extensas para auxiliar a compreensão. Isso mostra o tamanho da insegurança que existe”, afirma.
O que muda na prática
Embora a discussão tenha ganhado espaço principalmente sob a ótica da saúde mental, especialistas ressaltam que a NR-1 não cria uma obrigação ampla de bem-estar emocional. O foco está nos riscos psicossociais diretamente ligados à organização do trabalho.
“Está havendo uma associação indevida com programas amplos de saúde mental. A NR-1 não busca alcançar qualquer risco psicossocial, mas especificamente aqueles ligados à forma como o trabalho é estruturado, distribuído e coordenado dentro da empresa”, explica Hainzenreder.
Na prática, isso exigirá uma revisão mais profunda de processos internos, modelos de liderança, distribuição de tarefas e ambientes de pressão que possam funcionar como gatilhos de adoecimento ocupacional.
Para Patrícia Ansarah, CEO do IISP (Instituto Internacional em Segurança Psicológica), a mudança reflete uma transformação estrutural nas relações de trabalho. “Durante décadas, a gestão de riscos olhou principalmente para o [aspecto] físico, para ergonomia, acidentes de trabalho e insalubridades. Hoje, já se sabe que os riscos também estão na forma como as pessoas se relacionam e trabalham juntas”, afirma.
Segundo ela, fatores como trabalho híbrido, insegurança profissional, mudanças geracionais e os efeitos da pandemia aceleraram esse debate. “A pandemia escancarou uma conversa que a sociedade evitava há anos. O adoecimento mental deixou de ser invisível”, acrescenta.
Fiscalização e passivo jurídico entram no radar
Apesar da preocupação do mercado, especialistas descartam uma onda imediata de autuações logo após a entrada em vigor da norma. A expectativa é de que a fiscalização siga o princípio da dupla visita, priorizando inicialmente orientação antes da aplicação de multas em boa parte dos casos.
“O auditor pode solicitar documentos, especialmente o PGR atualizado com os riscos psicossociais. Há um período inicial de adaptação, mas isso não significa inércia. Empresas precisarão demonstrar que começaram efetivamente o processo”, explica Hainzenreder.
Patrícia reforça que a fiscalização deve ocorrer de forma mais direcionada. “O próprio sistema já indica onde estão os maiores afastamentos e os setores mais críticos. A tendência é que a fiscalização seja mais orientada por evidências nesses segmentos mais problemáticos”, afirma.
O avanço da NR-1 também amplia o alerta sobre passivos trabalhistas relacionados à saúde mental. Segundo Antonio Vasconcellos Junior, sócio-fundador do AVJ Advogados, o tema deixou de ocupar posição secundária no Judiciário.
“Questões como assédio, sobrecarga e pressão psicológica passam a exigir gestão efetiva, documentação e medidas preventivas concretas. A tendência é de aumento da responsabilização trabalhista para empresas omissas também na Justiça”, afirma.
Os dados reforçam a preocupação:
- Mais de 5 mil ações ligadas a riscos psicossociais desde 2014;
- Cerca de R$ 2,2 bilhões em discussão judicial;
- Alta de 28% nas ações por assédio moral entre 2023 e 2024;
- Avanço de 14,5% nos processos envolvendo burnout em 2025.
Na avaliação dos especialistas, a entrada em vigor da NR-1 consolida uma mudança mais ampla no ambiente corporativo, em que saúde mental deixa de ser apenas uma pauta de RH e passa a integrar discussões de produtividade, compliance e risco financeiro.
“A insegurança vem de ambos os lados. Gestores se sentem inseguros de passar informações aos funcionários, que também ficam inseguros de agir. Mas as empresas precisam perceber que hoje o trabalho não é mais repetitivo e sim relacional, o que torna essencial compartilhar os resultados. Por isso, as empresas terão de rever seus procedimentos, o que pode levar a um amadurecimento dessas empresas em termos de relações de trabalho”, disse Patrícia.
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