Com trajetória que combina base operacional sólida e visão estratégica orientada por indicadores, Mariane Singolani atua como gerente geral do Ramada by Wyndham Viracopos Campinas (SP), unidade administrada pela Atlantica Hospitality International, há três anos. Graduada em Hotelaria, com especializações em Gestão de Negócios e mercado de luxo, a executiva soma 16 anos de experiência no setor e tem direcionado sua liderança para integrar performance financeira, desenvolvimento de pessoas e impacto positivo no território onde atua.
Para ela, sustentabilidade não é apenas uma agenda corporativa, mas uma forma de construir resultados duradouros por meio de relações conscientes, responsáveis e alinhadas ao desenvolvimento coletivo. Essa visão, aliás, é reforçada por duas leituras citadas por Mariane: “Ética para o Novo Milênio”, de Dalai Lama, e “Muito Além da Economia Verde”, de Ricardo Abramovay. Ambas trazem provocações a respeito do modelo de consumo atual diante dos desafios climáticos.
Com a recente certificação Green Key do Ramada Viracopos, a executiva acredita que uma agenda que já vinha sendo estruturada foi reforçada. Hoje, segundo ela, o olhar do empreendimento é mais amplo sobre eficiência energética, gestão de resíduos, cadeia de fornecedores e relacionamento com a comunidade local.
Em entrevista ao Três perguntas para, Mariane detalha o que é a hotelaria sustentável na prática. Além disso, ela também comenta sobre como a certificação redefine prioridades estratégicas e de que forma as ações ESG já começam a refletir nos indicadores operacionais e comerciais da hotel que gerencia.
Três perguntas para: Mariane Singolani
Hotelier News: Quais fatores tornam um hotel, de fato, sustentável? O que atender à agenda ESG traz de retorno?
Mariane Singolani: Durante muitos anos, falar em sustentabilidade era praticamente o mesmo que falar em estabilidade financeira. Um empreendimento sustentável era aquele capaz de gerar lucro consistente, manter sua operação ativa e remunerar seus investidores ao longo do tempo. A lógica era essencialmente econômica.
A partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, o conceito ganhou novas camadas. Passou-se a compreender que crescimento econômico, por si só, não garante continuidade. Para que um negócio seja realmente sustentável, ele precisa operar respeitando os limites ambientais e contribuindo para o desenvolvimento social do território onde está inserido.
No setor hoteleiro, essa evolução é ainda mais evidente. A hotelaria depende diretamente do entorno: da qualidade ambiental do destino, da vitalidade da economia local e da experiência proporcionada à comunidade e aos visitantes. Por isso, sustentabilidade hoje significa integrar estratégia e responsabilidade em três dimensões interdependentes: ambiental, social e governança.
No aspecto ambiental, a gestão precisa ser técnica e mensurável. Eficiência energética, controle rigoroso do consumo de água e gás, redução de emissões, gestão inteligente de resíduos e diminuição do uso de plástico são práticas fundamentais. Contudo, iniciativas isoladas não bastam. É indispensável estabelecer indicadores claros, acompanhar resultados, definir metas de melhoria contínua e garantir que parceiros e fornecedores compartilhem os mesmos compromissos ambientais.
Já no campo social, o hotel assume papel ativo no fortalecimento do ecossistema local. Isso envolve investir no desenvolvimento de pessoas, promover diversidade e inclusão, priorizar fornecedores da região e estimular a economia do entorno. Quando hóspedes são incentivados a consumir no comércio local, visitar atrações culturais e valorizar produtores da região, o impacto positivo se multiplica. Além disso, apoiar projetos sociais, reduzir desperdícios e direcionar materiais reaproveitáveis para instituições locais reforça o compromisso com a comunidade.
Por fim, a governança sustenta toda a estrutura. Transparência, ética, gestão baseada em dados e solidez financeira são condições essenciais. Um negócio que não é economicamente viável não consegue manter seus compromissos ambientais e sociais. Sustentabilidade, portanto, não é apenas propósito — é estratégia de longo prazo.
Quando integrada de forma estruturada, a agenda ESG deixa de ser discurso e passa a gerar ganhos concretos: maior eficiência operacional, redução de custos, fortalecimento da reputação da marca, atração de investidores e acesso a mercados mais exigentes. Além disso, aumenta o engajamento dos colaboradores e cria vantagem competitiva sustentável.
Na hotelaria contemporânea, ser sustentável significa equilibrar resultado financeiro com impacto positivo, garantindo que o empreendimento prospere junto com o ambiente e a comunidade que o cercam.
HN: Recentemente, o Ramada Viracopos recebeu a certificação Green Key. O que isso significa na prática e como define o futuro das ações de sustentabilidade da unidade?
MS: A certificação Green Key veio como a premiação de uma jornada que o Ramada Campinas Viracopos já vinha construindo há algum tempo.
Temos o privilégio de estar localizados dentro do condomínio Bresco, em Campinas, um empreendimento que já nasceu com certificação LEED de construção sustentável. Isso nos insere em um ambiente que, estruturalmente, já carrega valores ligados à responsabilidade ambiental.
O condomínio abriga um parque com mais de 26 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, promovendo biodiversidade relevante. Conta também com pista de corrida de 5 quilômetros, horta coletiva, uso de água de reuso e soluções de mobilidade sustentável, como bicicletas, carrinhos elétricos.
Paralelamente, o Ramada Viracopos já vinha implementando diversas ações próprias. Com mais eficiência energética, eliminamos o uso de garrafas plásticas, instalamos um biodigestor que permite que zero resíduo orgânico seja destinado a aterro sanitário e garantimos a reciclagem do alumínio e dos resíduos plásticos ainda gerados. Todos os apartamentos possuem lixeiras com divisórias para correta separação dos resíduos, e mantemos comunicação ativa com os hóspedes sobre nossas práticas, incentivando sua participação.
Também ampliamos nosso olhar para a alimentação consciente. Aumentamos significativamente os itens veganos em nosso cardápio diário e, para banquetes e eventos corporativos, oferecemos opções de coffee breaks e almoços 100% veganos. Entendemos que sustentabilidade também passa pelas escolhas alimentares e pelo incentivo a alternativas com menor impacto ambiental.
Muitas vezes acreditamos que já estamos fazendo bastante. No entanto, a certificação Green Key trouxe um novo nível de exigência e reflexão. Ela nos desafia a ir além da eficiência operacional e a aprofundar nosso impacto positivo.
Se antes o foco estava muito concentrado em eficiência energética, redução de consumo e mensuração de indicadores para melhoria contínua, a certificação ampliou nossa visão para o papel do hotel como agente transformador no território onde está inserido.
Intensificamos o trabalho com fornecedores locais, priorizamos produtos orgânicos e adotamos exclusivamente ovos de galinhas livres em nossa operação. Instalamos ninhos para pequenos pássaros nos jardins do hotel, que cercam todo prédio. Um diferencial arquitetônico do prédio é que, de qualquer apartamento ou área interna, a vista está sempre voltada para áreas verdes. Também instalamos comedouros para incentivar uma fauna mais ativa no entorno.
HN: Como foram os principais indicadores do último trimestre de 2025? Existe algum impacto das ações ESG nestes resultados?
MS: O último trimestre de 2025 foi um período aquecido para a unidade, com evolução consistente nos indicadores operacionais em relação ao trimestre anterior, tanto em ocupação quanto em diária média e, consequentemente, em RevPAR e faturamento.
Além do cenário comercial favorável, já conseguimos observar impactos concretos das ações de sustentabilidade nos resultados financeiros.
Os maiores reflexos estão na linha de Utilities. A implementação de um modelo mais eficiente de consumo energético trouxe reduções significativas. Diminuímos o volume de água consumido, reduzimos em mais de 50% a conta de gás e registramos queda no peso do lixo recolhido, o que impacta diretamente na taxa de resíduos. São economias estruturais, que permanecem ao longo do tempo e fortalecem a margem operacional.
Pequenas decisões operacionais também fazem diferença. A eliminação do uso de blisters, por exemplo, pode parecer pontual, mas quando analisada no volume anual, representa redução relevante de custo e de geração de resíduos.
No aspecto comercial, percebemos um aumento no número de RFPs em que o hotel passou a ser priorizado justamente por possuir certificação internacional de sustentabilidade, como a Green Key. Cada vez mais empresas incluem critérios ESG como pré-requisito ou diferencial competitivo na escolha de fornecedores.
(*) Crédito da foto: Divulgação/Atlantica Hospitality International













