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A tempestade perfeita na hotelaria: como o fim da escala 6×1, a Reforma Tributária e as taxas das OTAs sufocam as margens em 2026

O setor hoteleiro brasileiro vive um momento de contradições profundas. Por um lado, os dados de ocupação mostram resiliência, e o turismo corporativo e de lazer segue aquecido. Por outro, os bastidores da gestão financeira e operacional enfrentam o que muitos já classificam como a “tempestade perfeita”.

O equilíbrio das taxas diárias médias (ADR) e da receita por quarto disponível (RevPAR) está sendo severamente testado por três frentes simultâneas e agressivas: o avanço do fim da escala de trabalho 6×1, a complexa transição da Reforma Tributária pós-fim do PERSE e a pressão asfixiante das comissões impostas pelos grandes players de distribuição digital.

Para debater como essa tríade impacta diretamente o cotidiano e a sobrevivência dos meios de hospedagem, analisamos os desdobramentos de cada um desses fatores no ecossistema hoteleiro.

O Desafio Humano e Operacional: O Fim da Escala 6×1

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa extinguir a escala 6×1 e consolidar a jornada de dois dias de folga semanais (como o modelo 5×2) trouxe um sinal de alerta vermelho para o setor de serviços, especialmente o de alojamento. A hotelaria é uma atividade essencialmente contínua: o hotel nunca fecha, o hóspede demanda atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Os Impactos Negativos na Gestão

  • Explosão nos Custos de Folha: Para manter a cobertura de escala e o padrão de atendimento nos postos de trabalho (recepção, governança, A&B), os hotéis são forçados a inflar o seu quadro de colaboradores. Grandes redes de luxo já iniciaram essa transição com investimentos milionários em novas contratações, mas a hotelaria independente e de pequeno porte dificilmente possui o mesmo fôlego financeiro.
  • Queda Imediata de Produtividade por Posto: Sem um ganho real de eficiência automatizada, a redução da jornada sem redução salarial eleva o custo da hora trabalhada. O gestor se vê no dilema de repassar esse custo para a tarifa — correndo o risco de perder competitividade — ou absorver o prejuízo na margem líquida.
  • Risco de Precarização e Informalidade: Entidades do setor alertam que o aumento abrupto do custo laboral pode surtir o efeito oposto ao desejado pela lei, forçando demissões, redução de serviços oferecidos (como fechamento de turnos de restaurantes de hotéis) e o aumento da informalidade em propriedades menores.

A Encruzilhada Fiscal: Reforma Tributária e o Pós-PERSE

O ano de 2026 marca o início prático da fase de testes do IVA Dual (composto pela CBS federal e o IBS estadual/municipal). O setor, que já vinha se reestruturando após o encerramento dos benefícios do PERSE (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), agora precisa lidar com uma transição fiscal onerosa e burocrática.

Os Impactos Negativos na Gestão

  • Cumulatividade Temporária (O Custo do “Sistema Duplo”): Durante o período de teste, os hotéis precisam arcar com a alíquota experimental do novo sistema (0,9% de CBS e 0,1% de IBS) de forma adicional aos impostos vigentes (PIS, COFINS e ISS). Essa coexistência gera uma carga administrativa hercúlea para os departamentos de controladoria.
  • A Armadilha dos Créditos sobre a Folha: O modelo do IVA é baseado no desconto de créditos tributários sobre insumos. No entanto, a principal linha de despesa de um hotel é a folha de pagamento, que não gera créditos fiscais no novo regime. Com isso, setores intensivos em mão de obra acabam sofrendo um aumento real e desproporcional na carga tributária efetiva.
  • Fim do Fôlego do PERSE: Sem o zeramento de impostos federais que deu sustentação ao setor nos últimos anos, os hotéis voltam a pagar a totalidade dos tributos exatamente no momento em que os custos operacionais disparam, minando o capital de giro reservado para retrofit e inovação tecnológica.

O Sufocamento Marginal: Comissões e Markups das Grandes OTAs

Para fechar o cerco financeiro, o mercado de distribuição digital tornou-se ainda mais agressivo. Recentemente, a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) emitiu alertas contundentes sobre o impacto do aumento generalizado das comissões e taxas acessórias praticadas por grandes plataformas (como Booking e Expedia).

Os Impactos Negativos na Gestão

  • Margens Canibalizadas: As comissões base praticadas pelas OTAs, que historicamente flutuavam entre 15% e 20%, têm sido infladas por taxas de “visibilidade acelerada” ou markups pesados nos canais indiretos, alcançando marcas proibitivas de até 30% em determinados cenários. O hotel trabalha, o hóspede consome, mas uma fatia massiva do lucro fica retida no intermediário.
  • Perda do Controle Tarifário: Algoritmos agressivos e programas de fidelidade das próprias OTAs muitas vezes criam disparidades tarifárias que o hoteleiro custa a monitorar, enfraquecendo a estratégia de precificação dinâmica (Revenue Management) desenvolvida pela própria propriedade.
  • Custo de Aquisição de Cliente (CAC) Insuportável: O investimento exigido para figurar nas primeiras páginas dos buscadores e marketplaces digitais transformou as OTAs em “sócias” compulsórias dos hotéis, reduzindo drasticamente o Retorno sobre o Investimento (ROI) da distribuição.

Diante desse cenário, a gestão hoteleira não tem mais espaço para o empirismo ou o “achismo”. Sobreviver à pressão combinada das novas leis trabalhistas, do rearranjo tributário e do oligopólio das OTAs exigirá uma mudança radical de postura.

O caminho para mitigar esses impactos negativos passa, obrigatoriamente, por três pilares de ferro: a automação extrema de processos operacionais (para compensar a rigidez das escalas de trabalho), um planejamento tributário cirúrgico ao lado de especialistas, e o fortalecimento absoluto dos canais de reserva direta. Só diminuindo a dependência dos intermediários digitais e otimizando a eficiência interna será possível resgatar a rentabilidade e garantir o futuro da hospitalidade brasileira.

Sócio diretor da Escola para Resultados e da Operadora Hoteleira HotelCare, Jeferson Munhoz conta com mais de 30 anos na área de vendas, distribuição e marketing, em cargos de liderança em hotéis independentes e redes hoteleiras nacionais e internacionais, tais como Accor, Club Med, Bourbon, entre outras. Já participou de 30 aberturas e conversões hoteleiras no Brasil e América do Sul. É professor universitário com passagem em instituições como: USP, Anhembi Morumbi, Uninove e Senac. Participou em associações de classe com FOHB e Resorts Brasil.

(*) Crédito da foto: Arquivo Pessoal

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