Dando continuidade à programação do HTC (Hotel Trends Conference), aberto há pouco em São Paulo, o painel O turismo decola ou pousa? As perspectivas da aviação e seus reflexos sobre a hotelaria corporativa e de lazer discutiu os principais desafios e oportunidades para o transporte aéreo brasileiro e seus impactos sobre o turismo e a hotelaria.
A conversa foi mediada por Fábio Godinho, empreendedor e conselheiro independente de empresas, e contou com a participação de Jerome Cadier, CEO da Latam; Mateus Pongeluppi, CCO da GOL Linhas Aéreas; e Vagner Ricardo, head de Global Aviation Market & Airline Business da Embraer.
Na abertura, Godinho apresentou dados sobre a evolução da conectividade aérea no Brasil. A nível de comparação com outros mercados, entre 2019 e 2025, a Colômbia ganhou 40 novas rotas aéreas, enquanto o Brasil perdeu 85. Segundo o executivo, a redução não está relacionada à falta de passageiros ou de destinos, mas à concentração da malha nos principais aeroportos do país.
No mesmo período, o número de passageiros transportados no Brasil cresceu 6%. A partir desse dado, o painel discutiu como a expansão da conectividade pode ampliar a capilaridade da aviação brasileira e, consequentemente, estimular o fluxo de turistas e viajantes corporativos para diferentes regiões.
Custos pressionam aviação
Ao fazer as primeiras considerações, Cadier afirmou que a Latam vem apresentando desempenho abaixo do esperado em 2026. A companhia registrou resultado positivo no primeiro trimestre, mas fechou o segundo trimestre no campo negativo. “O segundo trimestre foi muito aquém do ano passado, em função do preço do combustível, impacto que começamos a sentir ainda ao fim dos três primeiros meses do ano”, disse.

De acordo com o executivo, a companhia atualmente paga 70% mais pelo combustível do que em janeiro deste ano. O item representa entre 30% e 35% dos custos de uma empresa aérea, o que limita a capacidade de absorver a alta sem repassá-la integralmente às tarifas. “O resultado não é catastrófico, mas é ruim frente à expectativa que a gente tinha”, reforçou.
Pongeluppi afirmou que a GOL enfrenta cenário semelhante, com um segundo trimestre desafiador e resultado negativo. Segundo ele, um dos fatores foi o conflito no Oriente Médio, que pressionou o preço do petróleo e, consequentemente, do querosene de aviação.
Para a hotelaria, a pressão sobre os custos das companhias aéreas é um fator relevante porque interfere na formação das tarifas, na demanda por destinos e na capacidade de planejamento das viagens. No segmento corporativo, passagens mais caras podem afetar políticas de viagens e a frequência de deslocamentos. No lazer, o impacto tende a variar conforme a sensibilidade a preço de cada perfil de viajante.
Conectividade pode ampliar demanda
Na avaliação de Ricardo, a demanda por transporte aéreo permanece resiliente apesar dos desafios enfrentados pelo setor. Segundo o executivo da Embraer, as companhias aéreas costumam avaliar os impactos sobre a demanda até o último momento antes de tomar decisões estratégicas relacionadas à operação.
A concentração da malha, porém, ainda representa uma oportunidade de expansão. “Quando falamos de concentração de operação, mais de 50% das decolagens de voos domésticos do Brasil partem de apenas seis aeroportos. Então, se imaginarmos novas rotas, ainda que para destinos consolidados, vai aumentar consideravelmente a demanda”, complementou.
Para a hotelaria de lazer, a abertura de novas rotas pode facilitar o acesso a mercados emissores que atualmente enfrentam limitações de conectividade. Em destinos turísticos fora dos grandes centros, a disponibilidade de voos diretos ou com menos conexões pode ser determinante para ampliar a ocupação e reduzir a dependência de mercados já consolidados.
No segmento corporativo, a lógica também se aplica: maior conectividade facilita o deslocamento de executivos, amplia o alcance de eventos e pode favorecer a realização de reuniões e negócios em cidades que hoje têm menor oferta aérea. Pongeluppi acrescentou que o aumento da conectividade e da demanda aérea produz uma reação em cadeia, com reflexos sobre a atividade turística, a abertura de novos negócios e o desenvolvimento dos destinos.
Reforma Tributária entra no radar
Durante o painel do Hotel Trends Conference, Godinho questionou os participantes sobre a Reforma Tributária e os possíveis impactos da nova política de impostos sobre a aviação. Segundo a discussão apresentada no evento, a mudança pode provocar uma redução de até 30% na demanda.
Cadier avaliou que a medida tende a pressionar negativamente a operação, uma vez que parte da nova carga tributária deverá ser repassada ao consumidor. “A tendência é crescer menos, abaixo das nossas expectativas”, disse.
Segundo o executivo, a aviação exige planejamento de longo prazo e não permite que mudanças estruturais sejam construídas “da noite para o dia”. Ele também apontou espaço para avanços em aspectos como preço, fidelização e qualidade dos serviços.
Uma eventual redução da demanda aérea pode repercutir diretamente na hotelaria. Menor fluxo de passageiros em determinadas rotas tende a afetar tanto hotéis voltados ao viajante corporativo quanto empreendimentos dependentes do turismo de lazer, especialmente em destinos cuja chegada depende majoritariamente do transporte aéreo.
Lazer ganha força no mercado aéreo
Pongeluppi destacou ainda a existência de um segmento de lazer considerado resiliente, que ganhou força após a pandemia. Segundo o executivo, esse público apresenta menor sensibilidade aos preços e tem contribuído de forma relevante para o crescimento da demanda. “Por outro lado, temos uma parte super sensível a preço, que vai sentir os altos e baixos. E essa segmentação vai ser um importante vetor de crescimento no futuro”, complementou.

A diferenciação entre perfis de viajantes também interessa diretamente à hotelaria. Enquanto o hóspede de lazer pode ajustar destino, período e categoria do empreendimento de acordo com as tarifas aéreas, o viajante corporativo tende a ter necessidades mais específicas de localização, frequência e flexibilidade.
Para os hotéis, compreender esses diferentes comportamentos pode ser decisivo na definição de estratégias comerciais, tarifárias e de distribuição. A dinâmica da aviação passa, portanto, a ser mais um indicador para o planejamento da demanda hoteleira.
Voos internacionais ainda têm espaço
O painel também abordou as perspectivas de expansão dos voos internacionais no Brasil. Pongeluppi afirmou que São Paulo já possui um mercado consolidado, mas apontou oportunidades de crescimento em destinos como Rio de Janeiro e Brasília. “Buenos Aires, por exemplo, tem o dobro de conectividade internacional do que o Rio de Janeiro. Esse problema é tão estrutural que acaba criando essas oportunidades de evolução, vamos colocar dessa forma”, analisou.
A ampliação da conectividade internacional pode beneficiar diretamente a hotelaria de grandes centros e destinos turísticos. Mais voos internacionais significam maior potencial de entrada de turistas estrangeiros e também podem fortalecer o mercado de eventos, congressos e viagens corporativas.
Sobre a atuação de novas companhias aéreas no Brasil, Cadier afirmou que o país está entre os mercados mais abertos à entrada de empresas do setor, o que considera positivo para o crescimento da aviação. Ricardo, por sua vez, ponderou que a chegada de novas companhias não é necessariamente o principal indicador de evolução do mercado. Para ele, o fator mais importante é o aumento efetivo da conectividade aérea.
Aviação e hotelaria caminham juntas
A discussão apresentada no Hotel Trends Conference mostra que os movimentos da aviação têm impacto direto sobre o desempenho do turismo e da hotelaria. Custos de combustível, tributação, conectividade, expansão da malha e perfil da demanda influenciam tanto as decisões das companhias aéreas quanto o fluxo de hóspedes nos empreendimentos.
Para a hotelaria corporativa, a evolução da malha aérea pode determinar a capacidade de atrair empresas, eventos e viajantes de diferentes mercados. Na hotelaria de lazer, a abertura de novas rotas pode ser o ponto de partida para o desenvolvimento de destinos e a diversificação da demanda.
Assim, acompanhar os próximos movimentos da aviação brasileira não é apenas uma tarefa das companhias aéreas. Para o setor hoteleiro, entender onde a conectividade cresce, quais mercados ganham acesso e como os diferentes perfis de viajantes respondem a preços e rotas também se torna uma ferramenta de planejamento estratégico.
(*) Crédito das fotos: Bruno Churuska/Hotelier News


















