O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou deflação de 0,32% em agosto, segundo dados divulgados hoje (11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Trata-se da primeira queda do índice em um ano, influenciada principalmente pela redução temporária nas tarifas de energia elétrica.
A redução de 7,63% na conta de luz teve impacto de -0,33 ponto percentual sobre o IPCA, impulsionada pelo bônus de Itaipu. Também contribuíram para a deflação as quedas nos preços das passagens aéreas, dos combustíveis e de parte dos alimentos, aponta a Folha de São Paulo.
A taxa de agosto foi mais intensa do que a mediana das projeções do mercado financeiro, que indicava queda de 0,28%, conforme levantamento da Bloomberg. Em julho, o IPCA havia registrado alta de 0,07%.
Esta foi a primeira deflação do índice desde agosto de 2025, quando havia recuado 0,11%, e a maior desde agosto de 2022, quando a taxa ficou em -0,36%. No acumulado de 12 meses, a inflação passou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto. Assim, permaneceu pelo segundo mês consecutivo abaixo do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC (Banco Central).
Energia elétrica puxa queda do IPCA
A redução nos preços da energia elétrica decorreu da aplicação do bônus de Itaipu, desconto distribuído anualmente a milhões de consumidores e calculado com base no saldo da conta de comercialização da energia da usina.
O efeito foi determinante para o desempenho do índice no mês. Em uma situação hipotética, sem a energia elétrica no cálculo, o IPCA teria registrado leve inflação de 0,01%, segundo Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IBGE.
De acordo com o pesquisador, a redução da energia elétrica foi a maior registrada para agosto desde o início do Plano Real, cuja moeda passou a circular em julho de 1994. O impacto também levou o grupo Habitação a registrar a maior queda para o mês no período, com deflação de 1,87%. O desconto, porém, tem caráter temporário e deve deixar de influenciar as contas de energia a partir de setembro.
Passagens, combustíveis e alimentos também recuam
O grupo Transportes registrou queda de 0,86% em agosto, refletindo principalmente a redução de 13,17% nas passagens aéreas e as baixas nos combustíveis. A gasolina ficou 0,59% mais barata, enquanto o etanol recuou 3,95% e o óleo diesel registrou redução de 0,8%. Já o grupo Alimentação e Bebidas apresentou o terceiro mês consecutivo de deflação. A queda de 0,34% em agosto, no entanto, foi menos intensa do que a observada em julho, quando o grupo recuou 0,67%.
Segundo Gonçalves, o movimento está relacionado ao aumento da oferta de produtos, favorecido por condições climáticas mais adequadas à produção agrícola, fator que costuma influenciar os preços dos alimentos nesta época do ano. A divulgação do IPCA de agosto ocorre às vésperas da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), marcada para a próxima semana.
O colegiado do BC irá definir o novo patamar da taxa Selic, atualmente em 14% ao ano. O dado de inflação de agosto reforçou, no mercado, as expectativas de um novo corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a taxa básica de juros para 13,75% ao ano.
“Para o restante do ano, o cenário inflacionário é mais complexo diante do panorama envolvendo o evento climático do El Niño e do patamar do preço do petróleo, com potencial impacto altista para bens industriais”, diz a economista Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos.
El Niño e petróleo ampliam riscos para a inflação
A instituição financeira Asa revisou sua projeção para o IPCA de 2026, reduzindo a estimativa de 5% para 4,8%. O balanço de riscos, entretanto, continua relevante, especialmente diante dos possíveis efeitos do El Niño, segundo relatório assinado pelo economista Leonardo Costa. O fenômeno climático pode provocar perdas na produção agrícola e pressionar os preços dos alimentos, além de elevar custos em setores como o de energia.
A consultoria 4intelligence, por sua vez, manteve sua projeção para a inflação acumulada em 2026 em 5,1%. Para a instituição, os efeitos do El Niño e as incertezas associadas à guerra ainda podem pressionar os preços nos próximos meses. A expectativa da consultoria é de inflação de 0,46% em setembro.
A alta do petróleo também levou o governo federal a anunciar um novo pacote de medidas para conter o avanço dos preços dos combustíveis antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. De janeiro de 2023 a agosto de 2026, durante a terceira gestão do presidente Lula, o IPCA acumulou inflação de 17,9%. Segundo levantamento citado pela reportagem original, trata-se da menor variação acumulada em um mandato presidencial até as vésperas das eleições desde o início do Plano Real, considerando o índice até agosto do quarto ano de cada governo.
Apesar da desaceleração recente da inflação e dos resultados do mercado de trabalho, o endividamento das famílias e o nível dos preços dos alimentos permanecem entre os desafios econômicos enfrentados pelo governo em 2026.
Na mediana das projeções do mercado financeiro, o IPCA deve encerrar o ano com alta acumulada de 5%, segundo o boletim Focus, divulgado pelo BC. A estimativa permanece acima do teto de 4,5% da meta de inflação.
A meta é considerada descumprida quando o IPCA acumulado permanece, durante seis divulgações consecutivas, fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% a 4,5%. O centro da meta é de 3%.
Inflação de serviços desacelera
A inflação de serviços foi de 0,03% em agosto, a menor taxa desde janeiro de 2024, quando havia ficado em 0,02%. A redução das passagens aéreas foi um dos principais fatores para o desempenho do indicador.
No acumulado de 12 meses, entretanto, a inflação de serviços ficou em 5,47%, acima do IPCA cheio, que registrou 4,22% no período. O IBGE também informou uma correção relacionada ao resultado de julho para o transporte por aplicativo. A taxa divulgada inicialmente havia indicado alta de 1,87%, embora a variação que deveria ter sido considerada fosse de -5,92%.
Segundo o instituto, o problema ocorreu devido a uma falha de sistema. A diferença foi incorporada ao cálculo do IPCA de agosto, resultando em variação de -4,57% para o transporte por aplicativo no mês.
(*) Crédito da foto: Divulgação

















