As transformações nas relações de trabalho estão colocando a hotelaria diante de um desafio duplo: acompanhar as novas expectativas dos profissionais sem comprometer a operação dos hotéis. O tema esteve no centro do painel NR-1 e Escala 6×1: os novos desafios das relações de trabalho na hotelaria, realizado durante o 4º Encontro de Gente Hoteleira.
A conversa foi mediada por Vinicius Medeiros, editor-chefe do Hotelier News, e contou com a participação de Kauana Miranda, gerente de Pessoas e Cultura do Novotel Itu Golf & Resort; Orlando Souza, presidente executivo do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil); e Yara Leal, sócia da PK Advogados.
Questionada por Medeiros sobre as mudanças pelas quais a hotelaria vem passando nas relações de trabalho, Yara afirmou que a percepção sobre o tempo foi um dos fatores que mais se transformaram no setor. Segundo ela, as expectativas dos profissionais também mudaram, especialmente em relação ao desenvolvimento de carreira.
“As pessoas estão muito ansiosas por promoções profissionais e não querem mais estar no operacional. Eles querem participar de decisões estratégicas”, disse. Para Yara, as aspirações dos trabalhadores mudaram significativamente, o que exige dos gestores um equilíbrio entre as expectativas dos profissionais e as necessidades da operação. Souza, por sua vez, destacou que a relação vocacional com a hotelaria também passou por transformações ao longo dos anos.
“Anteriormente, havia mais identificação e paixão com a hotelaria. Mas hoje os profissionais chegam ao setor com as expectativas se sobressaindo à parte vocacional. Os profissionais da geração atual têm outra visão de como tudo funciona”, acrescentou.
Mudanças na escala de trabalho
Durante o painel no Encontro de Gente Hoteleira, Kauana fez considerações sobre uma eventual mudança da jornada de trabalho no Brasil, da escala 6×1 para 5×2, já começou, inclusive, a ser aplicada na hotelaria. Para ela, o tema envolve diferentes aspectos relacionados à rotina dos hotéis, à eficiência operacional e aos resultados dos empreendimentos.
“Em um primeiro momento, é muito atrativo. Mas há muito no que se pensar, em termos de eficiência, operação e resultados. Além disso, quando se coloca na ponta do lápis e explica-se ao colaborador que ele vai trabalhar mais em alguns momentos, não parece mais tão interessante”, endossou.
Outro ponto levantado por Medeiros foi o apagão de mão de obra na hotelaria, que tem entre seus fatores a jornada intensa de trabalho. Ao responder ao questionamento, Souza afirmou que o FOHB defende a realização de estudos de viabilidade antes de qualquer mudança.

“Isso tem impactos na economia, na relação entre as pessoas, entre outros pontos. Fazer isso em ano eleitoral, sem estudo, não é funcional. Somos, sim, a favor de modernizações, mas de uma forma que traga perspectivas positivas para o futuro. Nenhum país do mundo que mudou a jornada de trabalho acabou com determinado tipo de escala”, disse.
O executivo também relacionou as discussões sobre jornada de trabalho à retenção de profissionais na hotelaria, reforçando a questão como um dos gargalos enfrentados pelo setor. Segundo Souza, as mudanças podem ainda ter reflexos sobre os resultados financeiros dos empreendimentos. “E este é um cenário que tende a comprometer significativamente a margem de muitos hotéis”, reforçou.
NR-1 e saúde mental
Na discussão sobre a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), os participantes do painel fizeram considerações sobre segurança no trabalho e os riscos psicossociais relacionados às atividades profissionais, reforçando a discussão sobre o tema no setor. “No ano passado, tivemos 500 mil pessoas no Brasil afastadas do trabalho por questões relacionadas à saúde mental. Embora a NR-1 exista, ela não especifica quais são os critérios de fiscalização, e enquanto não houver critérios objetivos para fiscalizar isso, será difícil implementar multas para as empresas”, explicou Kauana.
O painel também abordou questões como o burnout, apontado pelos participantes como responsável por parte dos afastamentos no setor. Nesse sentido, os debatedores reforçaram a necessidade de que temas relacionados à saúde mental sejam tratados de forma mais próxima no ambiente de trabalho.
A discussão sobre os riscos psicossociais também foi relacionada ao papel das lideranças na hotelaria, especialmente na identificação e no acompanhamento de situações que podem afetar os profissionais. “Os transtornos psicossociais são um fato e precisamos estar emocionalmente preparados para lidar com o sofrimento dos outros, porque somos lideranças e essa é nossa função”, finalizou Kauana.
(*) Crédito das fotos: Bruno Churuska/Hotelier News














