A hotelaria brasileira encerrou abril com sinais mistos de desempenho, refletindo um cenário de acomodação em alguns mercados e avanço consistente em outros. Dados da 225ª edição do InFOHB, levantamento mensal produzido pelo FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), mostram que a taxa de ocupação nacional caiu 1,1% no período frente a igual mês do ano passado. Apesar disso, a diária média avançou 1,9%, enquanto o RevPAR cresceu 0,9%, na mesma base de comparação.
O movimento revela um mercado menos pressionado por volume e mais sustentado por estratégia tarifária. Na prática, mesmo com leve retração na ocupação, parte dos hotéis conseguiu preservar rentabilidade por meio do aumento das diárias.
O movimento acontece em meio ao aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, com impactos diretos sobre o petróleo e os combustíveis de aviação. A escalada do conflito envolvendo o Irã e EUA elevou a pressão sobre os preços internacionais do combustível, afetando companhias aéreas e contribuindo para tarifas mais altas no transporte doméstico e internacional. Para a hotelaria brasileira, o efeito tende a ser duplo: desaceleração em viagens de lazer mais sensíveis a preço e fortalecimento de destinos com maior dependência de demanda corporativa ou regional.
Os dados regionais do InFOHB ajudam a explicar esse cenário. O Nordeste, tradicionalmente mais conectado ao turismo aéreo de lazer, concentrou os resultados mais negativos do mês. A região registrou queda de 3,2% na ocupação, retração de 4,4% na diária média e forte baixa de 7,5% no RevPAR.
O desempenho sugere impacto mais intenso sobre destinos dependentes de viagens longas e altamente atrelados ao custo das passagens. Em momentos de pressão econômica e encarecimento do transporte aéreo, o consumidor tende a reduzir estadias, encurtar viagens ou migrar para destinos mais próximos e acessíveis.
O Sudeste, principal polo hoteleiro do país, apresentou comportamento mais moderado. A ocupação caiu 1,1%, mas a diária média cresceu 2,2%, permitindo avanço de 1,1% no RevPAR. Já o Sul registrou retração de 1,2% na ocupação, porém sustentou crescimento de 2,4% nas tarifas e alta de 1,2% no indicador de receita. O Norte, por sua vez, mostrou estabilidade operacional, com crescimento discreto de 0,9% na ocupação e 0,3% no RevPAR, mesmo diante da queda de 0,6% na diária média.
Hotelaria econômica lidera em demanda
No recorte por categorias, o segmento econômico foi o único a ampliar ocupação em abril, com alta de 1,6%. O dado reforça a resiliência do modelo mais acessível em um ambiente de demanda ainda cautelosa. O midscale registrou queda de 3,1% na ocupação, enquanto o upscale teve retração ainda maior, de 4%. Em compensação, todos os segmentos elevaram tarifas: 2,2% no econômico, 4% no midscale e 0,3% no upscale.
Nos municípios, os contrastes ficaram ainda mais evidentes. Salvador apareceu como o mercado mais pressionado do levantamento mensal, acumulando retração de 14,4% na ocupação, queda de 14,1% na diária média e recuo de 26,5% no RevPAR — o pior desempenho entre as cidades analisadas. O Rio de Janeiro também apresentou desaceleração relevante, com baixa de 7,2% na ocupação e retração de 14,9% no RevPAR.

Na contramão, mercados com demanda corporativa mais resiliente ou localização estratégica no eixo doméstico mostraram maior capacidade de sustentação. O Centro-Oeste liderou os indicadores regionais do mês, com alta de 1,4% na ocupação, crescimento de 6,6% na diária média e avanço de 8,1% no RevPAR.

Goiânia aparece como um dos principais exemplos desse movimento. A cidade avançou 5% em ocupação e 9,3% em RevPAR, refletindo uma demanda menos dependente do turismo de lazer tradicional e mais associada ao mercado corporativo, agronegócio e viagens regionais. Vale mencionar que a capital goiana recebeu uma etapa da MotoGP, competição internacional de motovelocidade que “salvou o mês”.

Curitiba também se destacou pelo equilíbrio operacional, combinando alta de 2,9% na ocupação com avanço de 8,1% na diária média e crescimento expressivo de 11,2% no RevPAR. Belo Horizonte seguiu trajetória semelhante, com crescimento de 4,6% na ocupação e alta de 11,1% na receita por quarto disponível.
Acumulado do ano
No acumulado de janeiro a abril, o cenário se mostra mais positivo para a hotelaria nacional. A ocupação cresceu 1,1%, a diária média avançou 6,3% e o RevPAR teve expansão de 7,4%, indicando recuperação mais consistente no médio prazo.
Mais uma vez, o Centro-Oeste liderou os resultados regionais, com alta de 11,1% no RevPAR acumulado e avanço de 9,4% na diária média. O Norte foi a única região a registrar retração em todos os indicadores analisados, incluindo queda de 1,8% no RevPAR.
Entre os municípios, Goiânia desponta como o principal destaque do ano até agora. A cidade acumulou crescimento de 9,5% na ocupação, disparada de 20,6% na diária média e impressionantes 32,1% de avanço no RevPAR — o maior crescimento entre todos os mercados monitorados pelo levantamento.
Vitória, Campinas, Recife, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre também apresentaram desempenho robusto no RevPAR acumulado, todos com altas superiores a 10%, reforçando uma dinâmica de recuperação espalhada entre diferentes mercados regionais.
Por outro lado, Belém segue como principal ponto de atenção no consolidado do ano. A cidade registrou queda de 7,4% na ocupação, retração de 3,4% na diária média e recuo de 10,5% no RevPAR, destoando da trajetória positiva observada na maior parte do país.
O cenário reforça que, embora a hotelaria brasileira siga resiliente, a combinação entre instabilidade geopolítica, alta do petróleo e encarecimento das viagens aéreas já começa a produzir impactos distintos entre regiões e perfis de mercado. Em abril, os dados mostram que os hotéis conseguiram proteger receitas, mas também revelam um consumidor mais seletivo e um mercado cada vez mais dependente de eficiência comercial, distribuição e capacidade de adaptação da demanda.
(*) Crédito da foto: Peter Kutuchian//Hotelier News











