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HTC: 2027 promete mais receita, mas cobra eficiência

A hotelaria brasileira entra no ciclo de orçamento de 2027 com perspectiva de acelerar o crescimento, mas diante de um desafio: transformar o avanço da receita em rentabilidade. Levantamento elaborado pela Noctua Advisory e pelo Hotelier News para o HTC (Hotel Trends Conference) mostra que o mercado espera alta média de 9,8% no RevPAR em 2027, acima dos 7,2% projetados para 2026. Entre os resorts, a expectativa chega a 14,4%.

Os dados foram apresentados por Pedro Cypriano, fundador e CEO da Noctua, no painel 2027 será um ano de crescimento ou de margem comprimida? O que as pesquisas da Noctua e do Hotelier News revelam a hotéis e resorts?. O estudo reúne centenas de questionários respondidos por empreendimentos de 70 cidades, em 21 estados. Da amostra, 85,1% são hotéis e 14,9%, resorts. Ao todo, foram avaliadas 19 variáveis, entre ocupação, diária média, margem GOP (Gross Operating Profit), custos operacionais, turnover, investimentos e expectativas para 2027.

Já no início da apresentação, Cypriano destacou que o ambiente econômico não deverá proporcionar grande impulso ao setor. “Sobre o macroambiente, existe uma desaceleração do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Nossa visão, do ponto de vista econômico, é de que o mercado anda de lado, e por conta disso, aliado ao cenário atual da Selic, 2027 não terá tantas mudanças significativas”, afirmou.

Crescimento esbarra em diária e cenário econômico

As projeções utilizadas no estudo apontam crescimento de 1,5% do PIB em 2027, ante 1,9% esperado para 2026. Para a Selic, a estimativa é de 12% no próximo ano, depois de 13,7% em 2026. Já o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) projetado passa de 5% para 4,2%.

Mesmo nesse ambiente, a hotelaria manteve trajetória positiva em 2026. O RevPAR avançou 10,2% no primeiro trimestre, mas perdeu força no segundo, quando a alta ficou em 2,9%. No acumulado do ano, Cypriano destacou avanço próximo de 6%, citando o mercado internacional como um dos impulsionadores do setor.

A diária média, entretanto, aparece como ponto de atenção. De janeiro a julho, o indicador cresceu 5,4% na hotelaria urbana, enquanto a ocupação avançou apenas 0,5%. “Nossa economia não ajuda, e para 2027 não enxergamos mudanças abruptas”, disse Cypriano.

Por outro lado, ainda há espaço para elevar a ocupação. As médias anuais estimadas para 2026 são de 62,6% nos hotéis econômicos e supereconômicos, 64,8% em midscale e upper midscale, 58,9% em upscale e luxo, e 65,5% nos resorts. A avaliação é de que, enquanto as tarifas chegaram ao topo histórico em termos reais, a ocupação ainda poderia avançar até 10 pontos percentuais.

Resorts encontram força no mercado regional

A expansão da oferta aérea pode estimular a demanda em 2027, embora as tarifas permaneçam elevadas. A estimativa é de que a oferta doméstica alcance 150 bilhões de assentos no próximo ano, 14,2% acima de 2019. Nesse cenário, a Noctua identifica oportunidades principalmente nas viagens regionais.

Pedro Cypriano
Cypriano reforçou influência da alta das viagens na hotelaria

“A proporção de viagens está crescendo, o que deve dar alguma propulsão ao setor hoteleiro. Os dados setoriais relacionados a resorts mostram um primeiro semestre com o mercado regional funcionando bem”, analisou Cypriano. De janeiro a julho, o RevPAR cresceu um dígito nos resorts de praia e dois dígitos nos empreendimentos de campo.

No segmento de resorts, o executivo apontou avanço relevante da demanda no primeiro trimestre, retração no segundo e retomada significativa a partir do terceiro. “Temos boas perspectivas para os próximos meses, no lazer, mas ao mesmo tempo visualizamos desafios para o corporativo”, afirmou. Segundo ele, as reservas para setembro e outubro voltam a apresentar evolução mais expressiva.

Em sentido contrário, as viagens internacionais ampliam a disputa pelo consumidor brasileiro. Entre janeiro e julho de 2026, os gastos de brasileiros no exterior chegaram a R$ 80 bilhões, alta de 8,5% sobre igual período de 2025.

Receita cresce, mas margem não acompanha

Os números de 2026 ajudam a explicar a preocupação com as margens. Os respondentes projetam aumento de 5,5% da diária média e de 1,6% da ocupação. Outras receitas devem avançar 4,2%, enquanto o GOP cresce 3,5%. Do lado dos custos, a folha salarial deve subir 6%.

Esse descompasso já aparece na rentabilidade. A margem GOP média dos hotéis passou de 39,6% em 2025 para uma expectativa de 38% em 2026. Nos resorts, caiu de 31,7% para 30,2%. O levantamento relaciona parte dessa pressão ao fim do Perse e ao aumento da folha de pagamento.

Ainda assim, 42,2% dos hotéis pesquisados projetam GOP superior a 40%, com destaque para midscale e upper midscale, cuja margem média chega a 40,7%. Entre os empreendimentos que superam esse patamar, 83% estão em capitais e 96% possuem marca.

Na avaliação apresentada por Cypriano, a performance dos empreendimentos participantes da pesquisa é satisfatória, com 3,7 pontos, mas ainda existe espaço para avançar, inclusive para justificar os investimentos realizados em novos produtos hoteleiros.

Eficiência operacional vira prioridade

Uma das oportunidades está na estrutura de custos. O número mediano de funcionários por unidade habitacional é de 0,3 nos hotéis econômicos e supereconômicos, 0,4 em midscale e upper midscale, 1,2 em upscale e luxo e 1,8 nos resorts. “A hotelaria ainda tem espaço para crescer em eficiência operacional e buscar melhores resultados. Essas oportunidades existem principalmente nos resorts”, afirmou Cypriano.

O turnover reforça o desafio: a média do mercado foi de 38,9% em 2025. Entre os resorts, a mediana chegou a 41,9%, maior percentual entre os segmentos analisados. O estudo também identifica tecnologia e inovação entre as principais lacunas de hotéis e resorts. Uso de inteligência artificial para produtividade, geração de receitas auxiliares, maturidade em analytics e qualificação das equipes estão entre os pontos de melhoria.

A qualidade da gestão também está relacionada ao desempenho. Entre os hotéis com NPS acima de 80, 58,3% apresentam crescimento superior a 15% no RevPAR em 2026, ante 16,7% entre aqueles com NPS abaixo de 60. Nos empreendimentos com asset manager atuante, 25,8% crescem mais de 15% em RevPAR, contra 18% entre os que não contam com esse profissional.

Investimentos reforçam perspectivas para 2027

As expectativas mais favoráveis para 2027 vêm acompanhadas de reinvestimentos. Segundo o levantamento, 63% dos hotéis têm planos de aportar recursos nos ativos. Entre os empreendimentos com investimentos previstos, a média por unidade habitacional chega a R$ 148.086 nos resorts, R$ 77.821 em upscale e luxo, R$ 45.296 em midscale e upper midscale e R$ 12.528 nos econômicos e supereconômicos.

A necessidade de ampliar os resultados ganha peso diante da pressão dos custos. Entre janeiro de 2014 e julho de 2026, enquanto o IPCA acumulou 101%, outros indicadores relevantes para a operação hoteleira avançaram entre 124% e 126%. A leitura é de que reajustar tarifas apenas pela inflação oficial pode não ser suficiente para preservar a rentabilidade, um dos principais objetivos do setor como um todo.

Assim, 2027 tende a combinar crescimento com maior disputa pela margem. A conclusão da Noctua é de que a hotelaria precisará avançar mais do que em 2026 para compensar a pressão de impostos e da folha salarial. Sem grande impulso esperado do ambiente macroeconômico, o resultado deverá vir principalmente da gestão: equipes fortes, novas receitas, ativos bem cuidados e maior eficiência em custos.

(*) Crédito das fotos: Bruno Churuska/Hotelier News

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