O desempenho da hotelaria brasileira entrou no radar do FNH (Fórum Nacional da Hotelaria) a partir da análise de Cristiano Vasques, sócio-diretor da HotelInvest. À frente da palestra Panorama da Hotelaria Brasileira, o executivo apresentou indicadores recentes do mercado, avaliou os efeitos do ambiente macroeconômico sobre a demanda e discutiu os fatores que podem influenciar a expansão da oferta hoteleira e criar um cenário desafiador nos próximos anos.
Entre os pontos destacados por Vasques está a proximidade das eleições presidenciais, que pode alterar a conjuntura econômica e, consequentemente, afetar as decisões de investimento e o desempenho da hotelaria. Atualmente, o país convive com juros ainda elevados, inflação pressionada, perda de força da atividade econômica e um câmbio sensível, além do aumento das incertezas provocado pelo processo eleitoral.
“O que estamos vendo agora é: os fatores que poderiam gerar demanda agregada estão bastante limitados. No primeiro semestre deste ano, por exemplo, as diárias cresceram apenas 1,5% frente ao mesmo período de 2025. Já o RevPAR aumentou 2,3%, perdendo tração no recorte anual”, disse Vasques.
Desempenho
O executivo também apontou uma diferença importante entre os principais indicadores de desempenho da hotelaria. Enquanto a ocupação permanece relativamente estável nos últimos anos, a diária média apresentou avanço mais significativo durante o período de recuperação do mercado.
“Apesar desse crescimento, nos últimos seis meses ela começou a estabilizar, sinalizando o amadurecimento do ciclo de recuperação do setor”, reforçou.
A combinação entre ocupação, diária média e RevPAR ajuda a dimensionar o momento vivido pela hotelaria. Nesse sentido, a perda de ritmo observada nos indicadores apresentados no FNH sinaliza um mercado que passa por uma etapa diferente daquela registrada durante os primeiros movimentos de recuperação.
Para os empreendimentos hoteleiros, esse cenário também reforça a importância do acompanhamento da demanda e da capacidade de sustentação das tarifas. A evolução da diária média, quando analisada em conjunto com a ocupação, permite avaliar com mais precisão o comportamento da receita por apartamento disponível.
Short-term rental x hotelaria
Outro ponto abordado por Vasques foi o avanço do short-term rental, que ampliou a oferta de hospedagem em importantes mercados brasileiros e aumentou a concorrência com os hotéis.
Segundo o executivo, São Paulo registrou crescimento expressivo da oferta desse modelo entre 2023 e 2026. “Nos últimos anos o aumento foi de 182%, mas já vemos um movimento de estabilidade, o que significa um alívio a mais para a hotelaria, que volta a retomar o protagonismo”, analisou.
No Rio de Janeiro, o movimento observado é semelhante e, de acordo com Vasques, pode ocorrer de maneira ainda mais acentuada. A evolução da oferta alternativa passa, portanto, a fazer parte da análise sobre o equilíbrio entre demanda, inventário disponível e desempenho dos hotéis nos principais mercados.
“Analisando o cenário macro, o que irá acontecer com o desempenho dos hotéis depende muito de quantos empreendimentos novos entrarem no mercado”, disse.
A entrada de novos hotéis é um dos elementos que podem alterar a dinâmica competitiva das praças analisadas. Ao mesmo tempo em que a expansão do inventário aumenta a oferta disponível para o consumidor, o ritmo de desenvolvimento de novos projetos também está diretamente relacionado às condições de financiamento e ao ambiente econômico.
Desenvolvimento de novos hotéis
Segundo os dados apresentados por Vasques durante o FNH, um dos principais obstáculos para a expansão da hotelaria está na estrutura de capital necessária para viabilizar novos empreendimentos. “Hoje, o capital próprio tem sido a forma adotada por muitos hoteleiros para expandir, e essa não é uma escolha assertiva e que mostra uma realidade preocupante: falta de funding, custos de construção elevados, entre outros”, acrescentou.

O número de projetos em desenvolvimento também indica um ritmo moderado de expansão da oferta hoteleira brasileira. Em janeiro do ano passado, o país contava com 152 hotéis em desenvolvimento. No começo deste ano, o número chegou a 178 empreendimentos.
Na avaliação de Vasques, apesar do aumento, o crescimento ainda é tímido diante das necessidades do mercado. “Temos poucos projetos em desenvolvimento, e o cenário macro mostra que esse cenário deve permanecer no ano que vem, e talvez em 2028. Isso deve segurar um pouco a nova oferta hoteleira no Brasil”, enfatizou.
O panorama apresentado no FNH aponta, assim, para uma hotelaria que entra em uma nova etapa do ciclo de recuperação, marcada por menor ritmo de crescimento dos indicadores, estabilização da diária média e desafios para a expansão do inventário. Ao mesmo tempo, a evolução do short-term rental, as condições de financiamento e o ambiente macroeconômico devem continuar entre os principais fatores a acompanhar para entender os próximos movimentos do mercado hoteleiro brasileiro.
(*) Crédito das fotos: Lucas Barbosa/Hotelier News
















